sábado, 7 de fevereiro de 2015

Não sabemos o que somos, mas sabemos que somos parvos

Vou começar com: "Press F1 to load default setings". O pior é que a memória é a mesma, mesmo que seja mais rápida, mas o código binário é igualmente o mesmo, bem como o gostar de ter mais e melhor, duma forma rápida e sem escrúpulos. Nada será o mesmo, mas será tudo igual. Os ciclos repetem-se, mas com moscas novas. Julgo que tudo isto é uma guerra sem cataclismo, pelas razões óbvias. É como a moda seremos agora todos muito amiguinhos dos animais, mas não de nós próprios. Pela mesma razão, a única coisa que importa é o umbigo de cada um e dos que estão em casa, ou dentro do seio da família/amigos. O resto? É uma amálgama de interesses e vontades. Faço uma pergunta básica: quantas vezes já travaram na estrada para outro entrar? E o outro o que faz? Ou não agradece, ou então, depois, faz um conjunto de merdas que só o apetece espancar. Em que ficamos? Damos a outra face, ou somos fundamentalistas? Para alguns dar a outra face é ser fundamentalista e para outros ser-se fundamentalista é dar a outra face. Por certo que se não sentisse tanto sono quando leio demasiado, ou teria de viver pelo menos um bom bocado mais, ou então quase certamente que iria encontrar um livro escrito por alguém com barbas longas e brancas que teria uma das justificações ou, filosóficas ou, até mesmo, pragmáticas para o assunto. Muitos deles duma forma quase ocasional acharam que o saber absoluto não é possível e por isso mesmo mais valia que tudo não existisse. Tudo, nada? Nada, tudo? Chupa um limão! Todos sabemos que não gostamos do mesmo, mas há conjuntos de pessoas que gostam mais duma coisa que de outra. Peguemos em dois indivíduos padrão. O miúdo loirinho, perfeitamente ocidentalizado, que à nascença foi acolhido por uma família, ou sociedade, regida pelas leis fundamentalistas, certamente que hoje estaria com uma bomba amarrada aos testículos e gritaria por alguém que acreditasse, tendo-lhe sido explicado que logo após o acto, viveria muito mais feliz. Bem como o inverso, sendo que o miúdo com feições  pouco ocidentais, seria quase certamente alvo de comentários racistas e infundados, mas no entanto iria preservar os seu testículos duma forma muito mais acérrima, quase fundamentalista. Na verdade não sei qual a sorte do loirinho no que diz respeito ao racismo infundado, mas pelo que vejo, seria bem recebido na sociedade fundamentalista, desde que desse a própria vida em prol da causa. Pensando assim, qualquer um serve, desde que acredite, tanto para um caso, como para o outro. Os extremismos são como tal, mas não se tocam, porque se isso acontecesse, ao tocar-se, tinham um orgasmo de morte. Voltando ao início, "reset and load default", nunca seria possível, porque dentro da nossa cretina evolução há sempre diferenças. Se vamos chegar a diamante? Quem já vendeu muito, diz que sim, de qualquer forma, esse mesmo indivíduo anda com um veículo topo de gama, mas não tem dinheiro para pagar as revisões na marca...
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sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Não sei que nome hei-de dar a esta posta...


Bom dia e que a vós o sol vos cubra por completo, não deixando nada por cobrir, mesmo quando se tapem.
 
Chega perto de mim, de tal forma que a tua beira se junte à minha.
 
Caçoila que vais quente, não te esquines, nem te ponhas ao frio, que nem o testo, nem o pano te acodem, quando a tampa da santita te cair em cima!
 
Quarto de espera e sala de banho, não é natural! O que é natural é cada um dizer de acordo com a sua região! Restaurador oral boto!
 
Negra ficou a pisadura, que o meu cão me fez, que preto como uma nódoa negra!
 
Deixei de fumar este cigarro e a sua prisca no cinzeiro deitei, onde outras tristes beatas se ladeavam.
 
 
Estas e outras frases sonantes num dicionário perto da sua beira.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Vamos contar (eu, tu, ele, nós, vós e eles)

1
"...disparo uma frase solta por entra a folhagem densa do teu olhar, que me deixa penetrável ao teu desprezo, sem haver uma pinga do quer que seja palpável, mesmo o que é vigoroso, que nos envolve duma forma lenta, num calor suave, em vulcões de surpresa, profunda e natural."
- Agora já me pode servir o gelado??!! Possas!


2
Arrebitei o nariz e vi a vaca. Olhei-a nos olhos, suspirei e retive o pensamento.
- Só espero que essa bosta não me toque profundamente...


2.1, ou 3
Andei, caminhei, palmilhei, cheguei mesmo a correr e nada, nem ninguém, mesmo as pessoas que não vi, se comparam à beleza deste individuo.
- Vais sair da frente, o queres que te empurre?!


3
Alma, sangue, suor, vibração do ser, melancolia que viver, ser surpreendido pela vontade de não mais estar, de mais nada querer, a não ser o crer.
- Quanto custa mesmo a hóstia?
- A hóstia não se paga.
- Muito bem. Deve então estar à espera que eu use “as famosas” palavras: - São 3 quilos -  certo? Não, não vou, vou mesmo é comprar noutro lado e que vendam. Acho mal que o façam, assim... de borla. Ele não ia ficar contente! Mas obrigado na mesma.


4
- Não.
- Sim.
- Não.
- Sim.
- Não.
- Sim.
- Não.
- Sim.
- Não.
- Sim.
- Não.
- Sim.
- Não.
- Sim.
Ficaram para sempre confusos quem tinha começado, mesmo quando pararam para almoçar.


5
Vede, vede o que faço com esta faquinha de capar grilos, vede! Estais a ver? Não? Então vede, vede bem, para que a imagem nunca mais lhe abandone a retina.
Quem não souber, pode até achar que estas palavras são engraçadas e de certo modo originais? Mas não são, em muito são plágio dumas outras tantas, que em dias de tempestade, como hoje, me assolam a memória e impelem-me a que as use, a meu belo prazer, sem ter respeito por quem as pensou, numa forma ultrajante, as uso, e abuso, e as torno impuras, sem ter medo, qualquer tipo de pudor, para que sirvam o meu desejo de achar que são minha!

- Agora, se achas que a água é boa para beber, então força. Mas olha que essa cor esverdeada não deve ser natural...


7 (e o 6 pá?!)
7 é um numero que para nós, os fracos, nada diz. 7 é um numero mítico, que para muitos é usado duma forma banal, sem ter em mente que foi o 7 que fez muitas das coisas que acontecem hoje em dia e que damos por garantidas. Mas não devemos nunca, mas mesmo nunca usa-lo para esfregar os tachos, pois o seu uso indevido não aflora bons presságios.

- Pensariam que ia portanto meter aqui uma frase parva, que em nada, mas em tudo tem sentido com o que escrevi no ponto 7. Mas não! Enganam-se! O número 7 está reservado para alguém que é meu amigo e me pediu para o guardar. Nem que viesse o papa, ou até mesmo Deus, não o dava! Vá lá, emprestava, mas era por uns minutos, mas tinhas de ficar a ver, que não confio! Só para verem tal não é a profunda amizade que tenho por este meu querido e amado amigo. Não é todos os dias que temos amigos com barbas grandes e narizes grandes, bonitos, ora!


6 (?)
Fico desde já à espera que o cavalo que está na linha 4, faça o favor de sair e ocupar o seu lugar. Obrigado.

O melro que está em cima do poste número 2, terá de ocupar o seu lugar e não o seu, mas o seu. Obrigado.

- Vi-te.
- Viste?
- Sim.
- E?
- E estavas.
- Eu sei.
- Mas olha, terás de esperar que eu diga como estavas, está bem?
- Sim, eu sei.
- Já posso?
- O quê?
- Dizer...
- Podes? Sim, acho que sim. Mas não sei o quê...
- Dizer como estavas.
- Podes. Mas rápido, que estou aflito.
- Para quê? Mas também é rápido, não demora.
- Muito bem. Obrigado então.
- Ora... onde estávamos?
- Era assim que estava?
- Como?
- Mau! Afinal, vai demorar...
- Não, não, estava só a conferir aqui os trocos que tenho.
- E então?
- 3€ e 50centimos.
- Vou indo, está bem?
- Mas ainda não disse...
- Se calhar não me viste e estás agora só aí para tentar falar comigo, porque eu trago aqui comigo o teu antigo cão. És muito espertinho, mas daqui não levas nada!
- Se o quisesse já o tinha chamado.
- Isso é que era bom! AHAHAHAH! Mandei-o capar! TOMAAA!

 
8
Não vale a pena continuar, também para a quantidade de pessoas que irão ler estes barrascos (como em tempo um critico disse). E depois, já me doem os nervos!
- Traga um café.
 
 

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Grovembeck


Grovembeck, um amigo, um poeta, daqueles de trazer por casa, alguém que não tem nada na manga, mas podia...

O melhor que há em cada um de nós, ele conseguia trazer, no entanto duma forma neurótica, quase desapercebida. Ontem, pela meia-noite encontrei-o descalço na cozinha do velho palacete, estando, lá fora, na rua, uns doentios dez graus célticos negativos. O frio enrijecia qualquer membro, ou tronco, do maior ser vivo, de sangue quente, à face da terra. Descalço o apanhei e lhe perguntei qual a sua forma de entender todos os problemas que o assolam. Não se fez rogado. Numa dialética muito branda e curta, explicou que dentro de nós há alguma coisa que nos move e nos traz de volta, mesmo quando partimos para partes esconsas, imiscuídas em brumas sombrias, que nem luz, nem nada, mesmo a mais clara, as penetra. Mas eu julguei que todos aqueles argumentos fossem deturpados pela vil sagacidade, que sempre o acompanhara. Enquanto caminhávamos para a copa, notei que algo estava errado, visto que o dreno que trazia, no braço direito, jorrava litros de líquidos, que em nada eram semelhantes a vinho do Porto. Olhei-o nos olhos, agarrei algo contundente, serrei os dentes e pensei que ia ser o meu fim. Mas não, ele olhou-me com todo aquele sentido resplandecente de quem tem piedade e abriu uma garrafa de Clicquot. Já na copa e por entre duas ou três palavras de encantar, decantou o nectar, sem pestanejar. Suaves gotas do líquido gotejavam, sôfregas de ar, como que morressem, numa anáfora de horror, senti cada gota que saía, enclausuradas no vidro fosco, opaco, escuro, preservado pelo tempo, oculto pelo deleite, como que fizessem parte de mim. De ar precisava e de ar iria morrer, nas goelas de quem o quisesse beber. Não, era demasiado óbvio, tal personagem, tal poeta, não detinha os poderes dum tal personagem de ficção romântica, tanto mais que desdentado tinha ficado e a espondilose já há muito o tinha arruinado. Sentou-se após a meticulosa tarefa, que desempenhou com mestria. Num movimento subtil, mas ao mesmo tempo declarado, só igualado ao de quem defere uma estocada, retirou do pequeno bolso da jaqueta, um minúsculo sino, fazendo-o soar. Duas aias de vestidos brancos e longos, não demoraram a irromper. Deslizaram; e, petrificaram-se junto a si. Balbuciaram duas ou três palavras em dialetos desconhecidos. Todo o cenário me fazia transportar para um festim medieval, de colher de pau e garfos de madeira, em que dentes afiados delongavam tenras carnes, apodrecidas pelo tempo. Estendeu o vinho decantado a uma das aias e a outra, um prato que jazia na mesa, coberto por comida brilhante. Vindas de ambos os lados, as aias deslizantes, colocaram ambos os objectos na minha frente. Olhou-me e disse:

- Comamos.

Pensei se devia, mas a fome e o resplandecente do prato, mais o brilho dos archotes no vidro cristalino, transformavam o nectar divino no líquido mais apetecido dos últimos séculos. Primeiro, ergui o copo e lá do alto, olhando Grovembeck, esse meu bom velho amigo, saudei-o. Fez o mesmo e disse, sem se levantar, que estava demasiado velho para se erguer, mas mesmo assim saudou, efusivo. Olhei o copo. Não conseguindo deixar de pensar no que iria beber, só mesmo que tinha laivos de sangue de boi, mas com a luminosidade dum diamante em bruto. Os meus lábios foram tocados por séculos de amadurecimento, por anos a fio de moléculas que mesmo estáveis, o festim fazem, estando no entanto, aparentemente inertes. Correm desenfreadamente, a cada 10, ou 5 anos, num tumulto digno duma revolução. Humedecem cada greta, cada espaço seco, cada ínfimo lugar microscópico dos meus lábios. De seguida, não conseguindo reter mais a vontade, abri a boca, ao que o néctar deslizou por entre as pequenas montanhas da minha língua, num frenesim assustador, tocou em todas as papilas gustativas e todas elas enrubesceram. O meu coração por momentos parou. Um arrepio estrondoso preencheu as minhas costas, membros e até mesmo todos os meus poros capilares. Cerrei os olhos e disse:

- Amigo, agora posso morrer.

Govembeck, de olhos fechados, fazia o mesmo, ou pelo menos assim o parecia, mas o inevitável tempo assim o ditou. O meu caro e adorado amigo, finara-se, apagara-se, deixara de existir, passara para uma nova etapa, morrera.

As aias, que estavam ainda connosco, numa prontidão irascível, saíram, sem sequer dizer nada, nem expressar qualquer tipo de suspiro, choro, decoro, sentimento algum... nada. Fiquei em silêncio, durante o que pareciam anos, a olha-lo, a admira-lo, sem qualquer tipo de pudor, senti-o dentro de mim. O seu corpo inerte, vingava na minha alma, duma forma quase pornográfica invade o meu ser. Quando não sentia os meus membros, por tanto estarem estáticos, fazia pequenos movimentos, para que aos poucos conseguisse levantar o meu corpo, que quanto mais tempo passava, mas pesado ficava. Assomei-me junto a ele em passos vagarosos, sem ter a ousadia de tirar os meus olhos dos dele, que continuavam cerrados mas pareciam plenamente abertos. Senti o frio da noite na ponta dos meus dedos. Ao chegar junto a ele, toquei-lhe por fim na mão e senti o calor gelado do amor, do fogo da paixão, os anos a fio me levaram até ele; e, sem pensar duas vezes, beijei-lhe a face. Os meus dedos neste momento gelados pelo querer, sentem os seus cabelos, o seu pescoço e deslizam pela sua pele, sentindo-a, penetrando a densa roupagem que o cobre. Mais uma vez os meus pensamentos divagaram para todos os momentos que já passara-mos, sem deixar fugir um único segundo. Meio século de conhecimento, não são suficientes para explicar o que sentia, para tentar saborear o que tanto ficara por dizer, por explicar. O silêncio, que era interrompido pelas rajadas de vento que faziam vibrar as janelas e portadas da imensa copa, parecendo quase um salão de festas, devido à sua grutesca imensidão. Numa magistral sinfonia de terror e paz, tais espaços, acompanhavam as minhas memórias. Numa vontade infinita, num orgasmo mórbido, tentei chegar à sua morte. Arrastei a cadeira ainda mais para junto dele, abeirando-me tão perto, que sentia o gelo do seu corpo. Aconcheguei-me na cadeira, peguei na sua mão, bebi do seu vinho e fechei os olhos procurando por algo que desconhecia. As velas extinguiam-se, a luz ténue invadia o espaço, o cheiro a comida que esfriava, séculos de álcool evaporado, mais os cheiros das madeiras velhas e novas, os incensos que pela casa se iam consumindo, invadiam as minhas narinas. Todo aquele quadro parecia culminar numa paz sem fim. Ouvia os sons já muito ao longe e senti medo, o frio medo de nunca mais voltar. Senti saudades de estar vivo e abri os olhos. Tudo estava na mesma, ele jazia, a luz cada vez mais ténue e o vento lá fora cada vez mais forte. A lareira, ao fundo, coberta de cinzas, já só leves cores rubras detinha. O frio, essa sensação de dor e doença, vinha em lufadas de ar carregado de morte. Enchi o peito de ar gelado pelo tempo e tomei a decisão de o levar comigo. Como o ia transportar sozinho? Chamei a plenos pulmões pelas aias e a única coisa que consegui ouvir foi:

- Ó rapaz! Queres-me matar do coração?!

Eu ainda envolto naquele ambiente mórbido e pacífico, dei o salto da minha vida e estatelei-me no chão, incrédulo. Govembeck não estava morto, só tinha tirado uns minutos para descansar. Repus a minha compostura e afastei-me o mais que pude dele. Eu tinha velado pela sua morte, tinha tentado estar ao lado dele, para onde ele tinha ido, tinha chorado interiormente pela sua falta e numa mistura de alegria, raiva e espanto, sorri. Ele arrastou a sua grande cadeira, ergueu o seu longo corpo, olhou em volta procurando as aias e soltou um:

- Meu caro, está frio, vou deitar. - Eu não sabia mais o que dizer e concordei.

Dei-lhe as boas noites e sentei-me de novo na cadeira que me tinha sido encomendada. Ali fiquei. Ele, arrastando-se, abriu a porta vagarosamente e antes de a fechar sobre si, fitou-me e disse:

- Quando eu morrer, quero estar sozinho. – E saiu.

As aias prontamente entraram no salão e despiram todas as suas roupas. Em grupos de duas, esponjaram-se em cima da mesa, em volúpia, os seus corpos se tocaram, num festim de orgia. Sim, eu sei que era isto que gostavam que eu dissesse que se tinha passado, logo após a saída do meu bom velho amigo, mas não, nada de passou, a não ser o facto de eu ter saído, ter subido para os meus aposentos e sem sequer retirar a roupa que trazia, afagando-me, deitei-me, sem conseguir abafar um suspiro de alívio e de impotência.

Acordei cheio de frio e ao mesmo tempo suado. Estranho, sem vontade de acordar, sem vontade de sequer olhar, de abrir os olhos, sem vontade de nada, de ali ficar e de ali me apagar. Voltei-me para o outro lado e continuei a dormir, pelo menos tentei. Lá fora o vento não se sentia e o sol gritava por entre as frinchas das portadas. Os longos cortinados de três camadas, não eram suficientes para suster a claridade, que se fazia acompanhar pelo canto de mil aves. Como podia ser? Estávamos no Inverno! Bateram à porta e sem sequer esperar pela minha resposta, saltaram para dentro do meu quarto. Era um exército de anões que a única coisa que traziam a cobrir os seus corpos, era uma fralda de pano, amarrada por um alfinete de dama dourado, posto de lado. Fechei os olhos, aguardei uns segundos e voltei a abrir. De facto era um sonho mau, pois o quarto continuava escuro e o frio voltara a fazer-se sentir. Senti uma sede infindável e procurei, por entre a escuridão, na mesa-de-cabeceira, pelo copo de água. Uma mão estendeu o copo. Achei estranho, mas aceitei. Depois, ao racionalizar a situação, dei um salto, deixam logo de imediato cair o copo na roupa da cama. Procurei quem estaria no quarto, mas não enxergava nada, só um vulto que se movia bruscamente. O pânico gelou-me a cara, fez o meu corpo tremer, o medo de não saber quem seria, misturava-se com a derradeira sensação de ser alguma coisa sem vida, que deambulava pela escuridão, que atormenta o ser, vingando-se, apoderando-se de nós, uma alma penada; e, este pensamento suplantou a racionalidade. Corri para as portadas, para que a luz trouxesse vida aquela forma de vida. Abri e nada encontrei, só mesmo o meu caro amigo a um canto, que ria em silêncio. Suspirei ainda em sobressalto. Perguntei-lhe o que estava ali a fazer, o qual respondeu que estava muito preocupado comigo, pois três meses a dormir, seria demais.

- Três meses? – Respondi.
- Sim meu caro, estiveste a dormir três meses. Ou pelo menos assim parecia, visto que morto não estavas e a tua respiração profunda, adivinhava um profundo sono.
- Mas como pode ser? Que dia é hoje? De facto a luz é diferente e já se sente um pouco de calor.
- É normal meu caro, estamos na Primavera…
- Como? Não pode ser… isso é ilógico.
- Não sei, o que é facto, é que durante esse tempo todo, a única coisa que se passou dentro deste quarto foi uma festa de anões, que eu organizei, para dar algum alento ao teu quase eterno sono. Pensei que podias estar doente e chamei o médico da aldeia.
- E estou? Aliás, estava?
- Não, não estás, mas também não estás completamente bem, pois o teu coração não bate…
- Não? Mas… espera. Não o sinto – disse eu, colocando a mão no peito.
- Vês? Pois, foi o que eu disse ao médico, que não podia ser, mas de facto é isso que se passa contigo. Entraste num sono profundo, que fez com que o teu coração não bata, mas todo o teu corpo continua vivo, ou pelo menos assim parece.
- Mas meu amigo, isso é digno…
- Não digas, que nos podem ouvir.
- Como sabias o que ia dizer?
- Porque sei…
- Mas eu que te julgava morto, no mesmo estado que eu, neste momento sou eu que estou assim e tu, tu como estás?
- Estou bem.
- Só isso?
- Sim… tenho passado os dias a ler e a fazer planos para o Inverno.
- Porquê o Inverno?
- Porque não conheço outra estação do ano.
- Mas… estamos na Primavera e estás aqui.
- É raro, mas é verdade.
- Estás-me a deixar confuso.
- Há quantos anos nos conhecemos? Cinquenta, certo?
- Sim, mais ou menos. Mas onde queres chegar?
- Durante esse tempo todo, quantas vezes estivemos juntos?
- Cerca de cinquenta…
- Nem mais. – Dizendo isso, aproximou-se da luz. – Queres ver o que esta luz me faz?
- Dá luz… não?
- Não só, faz isto! – Estendeu o braço nu e deixou que a luz percorre-se a sua pele. Não aconteceu nada de surpreendente, só mesmo uma pequena fumaça que emanava dele.
- Vampiros? Estás a brincar, certo?

Dando uma gargalhada, disse:

- Sim, estou a brincar, é só um efeito especial que aprendi com o meu amigo dos filmes. – Dando de novo uma sagaz gargalhada.
- Continuo sem saber o que se passou… Três meses? Não pode Alfino! Não pode!

Abriu muito os olhos e disse:

- Não me trates por esse nome aqui, as paredes têm ouvidos. Façamos o seguinte, levanta-te, tira as teias de aranha do teu corpo e vem ter comigo lá a baixo à copa, deves estar faminto.
- Sim, concordo. Já lá irei ter.

Dizendo isto, saiu.

Estaria ainda a dormir? Seria um sonho. Levantei-me e dirigi-me para a casa-de-banho que ficava numa divisão contigua. Quando me abeirei do espelho, não me reconhecia, pois a barba era tão longa e densa, que cobria quase toda a minha face. Não tinha forma de me certificar se seria ou não, um sonho. Tudo parecia muito real e tudo me parecia ainda mais irreal. Na minha cabeça replicavam duas palavras: Três meses. Incrédulo, tomei banho, retirei a barba densa, cortei algumas pontas do cabelo que pareciam estar apodrecidas pelo tempo, vesti-me e saí. Tudo estava exactamente igual aquando do outro dia. Como podia ser? Tinham passado, pelo que me tinha dito o meu caro amigo, noventa dias, os quais em puro sono. A única coisa que tinha mudado, era de facto o calor, que por esta altura recheava a casa, bem como o silvado dos pássaros e a luz, a imensa luz que resplandecia por toda a casa. Desci a gigante escadaria, de mão cravada no corrimão de pedra; e, em paços débeis cheguei ao patamar. Cheguei a pensar que ia desfalecer, pois as poucas forças que me restavam, quase não eram suficientes para me arrastar até à copa. Ainda me assolou um pensamento débil: porque razão precisaria ele duma casa tão grande…? Por fim, cheguei. Na mesa, de novo o vinho, os copos, a comida do outro dia, tudo tal e qual nos mesmos sítios, da mesma forma. Ele, com um sorriso irónico, estava sentado no mesmo sítio e para mim, reservado o mesmo lugar. As aias, nos mesmos sítios. Para além da lareira apagada, a única coisa que diferia era a luz, pois estando as longas portadas abertas de par em par, toda a luz preenchia na totalidade a infindável divisão. Tão ridiculamente forte e intensa, que quase me cegava. A fome fazia rugir todo o meu corpo e os meus olhos não abandonavam a comida, de tão brilhante que estava. Pedi água, estava morto de sede. Prontamente me encheram o copo. Ao lado, estava o vinho, o místico e mítico vinho, exactamente como o tinha deixado, supostamente, há três meses atrás. Bebi a água, pousei o copo vazio, peguei no copo de vinho, estupidamente brilhante, olhei Govembeck e disse:

- Comamos.

Quando acordei estava muito frio e as portadas, fechadas, batiam enraivecidas, assoladas pelo vento ciclónico de norte…

domingo, 5 de agosto de 2012

Cheguei e disse

Apontei a minha alma na direcção daquela lanterna, imergindo a mesma, quase de imediato, grandes lufadas de calor e desprezo. A sua luz branca e opaca, igual a inimitável vontade de estar bem, equiparada a todo o vasto vocabulário que nos impele a ser quem somos, não prejudicando a nossa inerte vontade por vitaminas, apagava-se por vezes sem razão aparente, tirando o individuo que a segurava, esquivando-se a pormenores, utilizava o interruptor a seu belo prazer. Ao presenciar tal vil visão, bebi tudo dum só gole e a vastidão do universo, no ponto de vista em que me encontro, não sendo dos mais perfeitos, levou-me a requisitar lenços de papel com emblemas de clubes de críquete. Quando os obtive, pensei que podia valorizar mais a expressão idiomática: Pélo-me pelo pêlo de gato, mas não sou muito fã. Frases deste tipo que em acordos bacocos, nos impelem a reorganizar aleatoriamente e sem regras lógicas, frases que se escapam no tempo e no espaço. A estupidez da aldeia global. Abro aqui o suspeito parênteses: “”…é a aldeia global" - explicam num júbilo imbecil, prontos a desfilar o rosário de maravilhas dos novos tempos, sem discernirem que aldeia sempre foi o sinónimo de isolamento e conformismo, de mesquinhez, aborrecimento e mexerico… “ in: Mão Morta - Aldeia Global. A gargalhada foi geral, tão geral que todos os que tinham desde muito cedo enveredado por carreiras políticas chorudas, ao contrário da minha, que mantinha a minha posição de sociopata afortunado, mas sem cheta. Mandei vir então dois bolos bem recheados de creme de ovo, ou similar, pois a inusitada textura, não adivinhava bom agouro. Qual não foi o meu espanto, quando por um infortúnio generalizado, todos os bolos locupletados por tal substância demoníaca como saborosa, tinham sido postos fora da circulação, pois os males adjacentes ao consumo de tais refinados e naturais produtos, poderão causar males irreversíveis, tanto para o consumidor, como para quem observa a deglutição. Controlei-me e pedi um saco de batatas, dos mais comuns, onde a salinidade é de tal forma concentrada, que os globos oculares, podem sofrer alterações a nível da cor e do cheiro. Não pensei e a exequenda ideia foi desde logo posta em prática. O substrato da contenda era por demais óbvio, mas o seu teor nunca fora explanado na íntegra, logo e por somatório das partes envolvidas, trouxe da base aérea número 2, por ser a mais próxima duma casa de Verão que conhecia em tempos, mas muito mal apetrechada de vontades sóbrias, uma peça de fogo suficientemente grande que coubesse na traseira duma carrinha de caixa aberta. O mecanismo entra em funcionamento e não mais o sentido da vida o pode parar. Por conseguinte, o restaurante após desértico, desprovido de qualquer tipo de ser vivo, arruinou-se após uma carga determinada de explosivos a sucumbirem à ruína, aos escombros. Nas notícias do dia seguinte: “Conduta de gás destrói restaurante de famosa cadeia de restaurantes.” Não me dei por contente, nem as cáries não me abandonaram. Vivi mais dois dias e mesmo assim, foi pouco. Gritei por ti, mas não sabia porquê. Ouvi o que não queria, mas fiquei com todos os meus amigos. Olá!

terça-feira, 3 de abril de 2012

Era uma vez... não não! Foi assim... não!

I

Começo esta história, como podia começar outras tantas que vejo por aí:
Era uma vez…
Não! Recusei-me a acreditar que era tudo uma vez! Há, por certo, um monte de outras formas de começar histórias. Depois de muito ler, de muito saber, tinha um conjunto de formas muito interessantes de o fazer, no entanto nenhuma delas me despoletou a vontade exacerbada de copiar, ou até mesmo de me inspirar em formas tão estranhas como:
E…
Mas continuo sem saber como começar. Pensei, depois, no famoso cliché “Eram 10 da manhã...”. De seguida, o ainda maior cliché “Ouviu-se um grande grito no escuro da noite…”. Ou então, o habitual “Assim começa…”. Nada me convencia, nada me inspirava.
Outras hipóteses surgiam, mas tudo o que me ocorria já tinha sido dito, pensado, feito, copiado, engendrado, meticulosamente arquitectado, explanado… daí que pensei que não estaria cá a fazer nada e então esta história começa como muitas outras:

Deixei um bilhete em cima da mesa da sala, que dizia:
“Meus amigos, caros companheiros de longos anos, amigas, camaradas, parceiros de longas lutas, conhecidos, desconhecidos, polícia, bombeiros, juiz, advogado, chupistas, avarentos, sanguessugas, coveiro, familiares e pessoas em geral.

Hoje acordei e pensei que poderia superar o facto de não ter argumentos para começar uma história, mas de facto não tenho. Não me ocorre nada, não tenho força de vontade para continuar, não tenho quem me inspire. De tudo vivi, de tudo um pouco fiz e quase tudo está relatado, escrito, falado, repisado, voltado a ser falado de formas mais loucas que se podia imaginar. Não tenho mais nada para dizer, não sobra mais nada senão um enorme silêncio, uma abafada vontade de tentar, que não vinga, uma terrível sensação de tudo ter feito e nada poder mais fazer. Todos os quantos que me ajudaram e tiveram papéis muito importantes na minha vida privada, pessoal, profissional, mesmo os críticos, que me deram vontade de mais fazer, por mais nefasta que fosse a crítica, quero dar os meus mais sinceros, profundos e alargados agradecimentos.


Vou por fim à minha vida!

Adeus”.

Depois de ter feito este manuscrito, cheio de rancor e tristeza, usando parte da tinta que a tia Beatriz me tinha oferecido e, que estava reservada para O tal texto, pousei-o na mesa da sala de jantar. Desloquei-me, vagarosamente, para a cozinha, com a garrafa de conhaque atrás, onde me esperava um conjunto completo de facas de cozinha. Por certo que não iria falhar pois tinha passado os últimos dias a afiar uma delas, sem propósito nenhum, só mesmo com o intuito de passar o tempo, ou então não…
Fala-se muito destas ocasiões, mas nada se sabe. A coragem, o egoísmo, o que nos leva a tomar uma decisão tão radical, a cobardia, ou simplesmente o cansaço? São ideias vagas, que são analisadas por pessoas que não têm mais nada que fazer. Tudo isto é um perfeito acaso, nada mais que isso. Acções sem grande sentido, que culminam num frenesim histérico de sentidos acumulados, que não conseguimos controlar e, que nos leva a executar uma acção, sem pensar em nada, só pela pura descarga de adrenalina. Não conseguimos controlar, é como um vício que nos enche todos os sentidos o qual tem de finalizar de alguma forma fora do comum, que nos faça sentir tudo, que seja real e mortífero, para depois em paz, possamos sentir o doce e suave fim. Nem a dor se sente…
Estes pensamentos são de quem está pronto, de quem nada teme senão a vontade de não conseguir. Peguei com muito cuidado na faca, para não a deixar cair. Como não podia deixar de ser, quando ia a executar o perpetrado, algo sucedeu. Sim, meus caros leitores! Eis senão quando, uma rola embate com toda a violência na vidraça da gigante janela da cozinha, caindo de seguida inanimada. Não! Isto não! É demasiado mau. Vou agora pensar em acções divinas e outras coisas que tais, efectuar paralelismos irracionais, vontades cósmicas e absurdos vindos de todos os cantos do universo. Não! Recuso-me a acreditar que este acontecimento tivesse tido alguma coisa a ver com a minha perpetração. Foi um acaso da vida, um espontâneo do destino, uma cabala montada por alguém que me estaria a ver naquele momento. As minhas buscas pelo racional levem-me a esquecer o que de facto importa mas, não queria parecer teimoso e investiguei o sucedido. Aproximei-me com algum cuidado da janela, pois tinha uma enorme rachadela e a qualquer momento poderia desabar por cima de mim, matando-me. É estúpido, sim, mas é verdade…
Lá estava a rola, no beiral da janela, da parte de fora, sem movimento. De tudo o que conseguia ver lá para fora, nada fazia pensar que alguém o tivesse feito, pois a imensa mata ao fundo, o baloiço enferrujado, que teimava não cair, amarrado ao enorme carvalho, um pouco mais para a direita, ao fundo o armazém de apetrechos de jardinagem, por trás os estábulos e o barracão, que apodrecia de dia para dia e uma enorme ventania, vinda sabe-se lá donde. Após esta última observação, conclui que a rola não resistiu aos enormes ventos de Maio e se tinha estatelado violentamente contra a imaculada vidraça, pensando poder-se refugiar no aconchego da casa. Sosseguei a minha veia racional e investigatória. Por outro lado nada daquilo me convencia profundamente e como senão bastasse, uma pobre e inocente rola, que jazia inerte, à mercê das intempéries. Primeiro, e para que nada de grave acontecesse com o vidro, fui à cave buscar os enormes barrotes que serviram em tempos para entaipar a casa, após o grande frio de 63, obrigando toda a família a migrar para climas mais moderados. Após ter gasto alguns minutos, certificando-me que o vidro estaria mais seguro, mesmo assim não tinha grande confiança no que tinha feito, resolvi no entanto ir à rua buscar a pobre rola. Sai e, de facto, o vento era duma força incrível. Largos pedaços de ramos soltos esvoaçavam por cima da minha cabeça e desabavam com toda a força a meus pés. Tinha a certeza que se algum dos ditos me acertasse, ficaria ali, sem vida. Sim, de novo, é estúpido, sim… Após alguma luta, consegui chegar perto do parapeito da janela e pegar na indefesa ave. Peguei-lhe com cuidado, senti o seu coração muito fraco, sorri pensando que ainda estaria viva e assim não teria sido em vão a minha aventura naquele temporal. Mal volto costas, a vidraça desmorona no chão, atrás de mim, como um baralho de cartas e com o som de mil trovões. De novo o racional fez-me pensar que devia ter-me assegurado duma forma mais peremptória que o enorme vidro estaria seguro. Por entre os vidros no chão, vi um envelope, o qual não conseguia tirar, sem que me cortasse e assim esvaíra-me em sangue, ali, na rua. Nem vale a pena falar, certo? Pisei com todos os cuidados os vidros e fechei as portadas, evitando assim que mais alguma coisa entrasse na casa, sem que tivesse sido previamente convidado. Ainda com a rola na mão e sentindo o calor da minha mão, senti que se mexia. Entrei em casa, fechei a porta e corri para a casa de banho, a fim de proceder aos curativos necessários, de forma a colocar a frágil ave de novo sã, pronta a desbravar os céus. Mexia-se agora com mais veemência, mas notei que poderia ter uma asa magoada, ou até mesmo partida. Já na casa de banho, peguei com todos os cuidado na asa que me parecia magoada e de facto quando mexia nela, o pobre bicho esperneava de dor. Não tendo qualquer tipo de noção de como proceder, pensei como se tratasse um humano. Dei-lhe algo para as dores, mas numa dose muito pequena e depois amarrei-lhe uma espécie de tala à asa, fui à cozinha buscar a cesta forrada a palha, onde normalmente se transportava os ovos, fui para a sala e deixei-a lá dentro. Para meu espanto, ali ficou, sem grandes movimentos. Fiquei horas a olhar para ela, imaginando o que estaria a pensar. Depois pensei que seria melhor providenciar alguma coisa para comer. Peguei no cesto e encaminhámo-nos para a biblioteca. Procurei por aves e em seguida, a sua alimentação. Onde poderia ter tais coisas? Dei um salto e corri para a sala de novo. Dentro da garrafeira tinha algumas sementes de girassol, que por norma uso para acompanhar algumas bebidas espirituosas, ou até uma cerveja. Dei-lhe uns quantos e a princípio não lhe tocou, mas por fim, talvez porque a fome fora mais forte, comeu bastante. Ali estava, prostrada, só mexendo por vezes a cabeça, em movimentos muito suaves. Eu não conseguia tirar os olhos da criatura, mirava-a como se tratasse duma obra de arte e a cada movimento, o meu coração saltava, com medo que lhe pudesse estar alguma estar a incomodar. Para a tranquilizar, fui para o piano e aí toquei uma suave balada. Não sei como, nem porquê, aninhou-se e adormeceu. Fiz um flash-back e por mais que fosse racional, nada fazia sentido. Olhei o papel que estava em cima da mesa de sala de jantar e, numa tentativa de encontrar um desfecho racional, concordante, efectivo de tudo aquilo, li de novo o manuscrito, que há horas houvera redigido. Quando o terminei, fiquei ainda pior, pois achei que o que estava ali escrito, não podia ter sido escrito pela minha mão. Senti como uma medonha que algo inexplicável poderia estar por detrás de tudo aquilo. Sentei-me na mesa da sala e daí, mirei o enorme quadro pendurado por cima da lareira, em baixo, junto à mesma, a rola lá estava, serena. O quadro parecia querer falar comigo, como que se o meu tetravô tivesse voltado dos mortos e dizia muito baixo: “Começa… começa com…”. Mal ouvia o que dizia. Estava tão cansado que aquelas palavras levaram-me a sucumbir na mesa, com o cansaço. Sonhei com nada, rigorosamente com nada.
Acordei, levantei-me e tive uma epifania: “É assim mesmo que eu vou começar o meu texto!”

“Acordei, levantei-me e morri.”

Dei um salto de contentamento, um pulo de euforia, um grito de alegria. Estava mais vivo que nunca e tudo fazia sentido agora. Lembrei-me vagamente do dia anterior e no meio de tanto entusiasmo, lembrei-me da rola. Já andava a fazer das suas, a malandreca. Estava agora no chão, onde arrastava a asa e comia do chão os restos das sementes do dia anterior.
Estão a pensar o mesmo que eu, não estão? Vou acabar por morrer duma forma tão estúpida, que nem vale a pena ler mais nada, é isso, não é? Não sei. Na verdade não sei, pois estou tão contente, que tudo poderia acontecer. Mas primeiro, vamos ao pequeno-almoço e depois logo penso nisso. Vamos rola?

II

Alguns dias passaram e não conseguia tirar o sorriso da minha face. A alegria de voltar a encontrar o meu verdadeiro eu, preenchia-me de todas as formas, mesmo aquelas que não eram válidas. Tinha ganho anos de vida! A ideia megalómana de ter uma vidraça tão grande na cozinha, desvanecera-se e em vez disso, depois de mandar chamar o meu vidraceiro de confiança, estava naquele momento a colocar uma janela própria dum palacete em que estava embebido. Resolvi tratar de quase tudo o que estava pendente na minha vida e quase tudo tinha a ver com a casa. A casa do jardim estava agora em construção, o jardim em si, estava num rebuliço duma verdadeira excitação de Primavera. O baloiço, esse pedaço de memórias, que na maior parte eram más, tinha sido retirado e a velha arvore, que trazia uma ferida profunda, estava neste momento em processo de cura, mas sabendo que as feridas curam-se, no entanto as cicatrizes ficam, que relembram os erros.
Tomei uma decisão, não ia deitar fora o manuscrito e estava já emoldurado. Ficou pendurado ao lado do outro grande ícone da minha vida, o meu tio Álvaro. Em quase todas as decisões da minha vida, tinha consultado as minhas referências e, tal como as decisões, nem sempre foram as mais acertadas. Mas o que tinha eu para me queixar? De nada! Tinha uma vida boa, cheia e repleta de coisas boas, que forravam o meu ego duma forma radiante e por ter tudo quase tão fácil, teriam acontecido os actos paralelos de há uns dias atrás? O meu racional continuava confuso, mas a excitação da alegria, toldava a minha razão. Se perguntam pela rola, a resposta é fácil. Depois de curar a asa, nunca mais abandonou a casa e voava graciosamente por todas as divisões. Mesmo estando janelas e portas abertas, só se assomava nelas, não tinha vontade de voltar à liberdade dos campos. A bem dizer tinha tudo em casa, para quê voltar a procurar o lado selvagem? Era livre em casa, tanto como na rua, mas preferia o aconchego da casa e quiçá daqui a uns dias não iria ter a companhia de outra rola. Depois de ler um pouco mais acerca desta espécie, conseguia já distinguir machos de fêmeas e estava perante uma fêmea. Não deixava de ser um tanto irónico, tal como tantas outras situações na minha vida.
A vida estava de volta à aquela velha casa e as férias de Verão estavam a chegar. Com isso toda a família que regressava às origens por uns dias, ou até mesmo meses, dependendo de quem viesse. Sentia uma urgência em estar com quem pudesse partilhar tudo de coração aberto, com alguém de confiança. Na aldeia todos me odeiam, tanto a mim como toda a minha família ou não odeiam, mas fingem que o fazem, por ser quem sou, ou filho de quem sou, onde vivo e como vivo. Todos, sem tirar um, mesmo os que estão a trabalhar comigo, na casa, nas terras, todos me olham com raiva. Mesmo quando tentava partilhar o pouco tempo, com os demais, companheiros de labuta, irmãos da mesma terra, que nos viu crescer, nem mesmo os meus mais chegados amigos de infância, mesmo todos me desprezavam. Estou a ser desonesto, e a proferir inverdades, pois havia um, que mesmo sendo meu/nosso empregado de sempre, meu companheiro de sempre e que já algum tempo não vinha à casa principal, pois gostava de ficar na casa que lhe oferecera, mais afastada da casa principal, onde vivia com a sua mais que tudo. O meu velho Mendes. Sempre soube que me amava, da mesma forma como quem ama um filho, mesmo depois de lhe ter feito de tudo, eu e alguns da casa, mesmo depois de partilhar o ódio da população, mas sabia que me amava. Mandei chamá-lo. Veio assim que pôde. Sempre impecável, sempre tão aprumado, mesmo agora que já não trabalha, no entanto recebe o mesmo até que morra. Foi um trato que fiz com ele e que já vinha de todos os outros que acompanhavam a família desde o primeiro que nos tinha servido. Não fazendo parte da família, provavelmente tinham mais segredos que todos nós juntos.
Ali estava ele, pronto, como sempre. Mandei-o entrar para o salão e sentar-se comigo junto à lareira. A conversa ia ser grave, pois tratava-se da sua substituição e na verdade não sabia como começar a conversa, tal como no início deste texto, senti o mesmo.
A total impotência de nada conseguir, de pensar em todos os clichés possíveis e imaginários, mas nenhum se adequava à situação. O Mendes, o valente Mendes, que sabia melhor do que eu as minhas fraquezas, prontamente nomeou o seu sobrinho para o substituir. Não consegui evitar uma lágrima e outra. O Mendes, homem ríspido, grave, alto, esguio, mesmo com a idade de avô, manteve sempre a sua pose, afagou-me, colocando a sua enorme mão na perna, e disse:
- Meu caro, há muito tempo que este dia estava para chegar e, depois do que passou, acho que tenho o dever de o ajudar. Este meu sobrinho, desde muito cedo que recebeu a educação para me substituir, pois foi educado connosco, aliás, como sabe e tem das melhores educações, logo está talhado para o servir da melhor forma. Não se atormente, eu sei bem qual é o meu lugar nesta casa, sempre o soube e o mesmo fará o seu novo empregado. Quando se deve apresentar?
- Não sei o que dizer caro Mendes…
- Vá, meu bravo, cabeça para cima, vamos! Não é isto que o vai deitar abaixo, pois não? Vamos, liberte a fúria dos Alves! Vamos meu… sempre menino.
Dizendo isto, desaba profundamente, num pranto como eu nunca tinha visto, nem mesmo por mulheres que vivam os lutos de forma tremenda. Chorava, soluçava, em pranto, em sobressalto, não se conseguindo controlar. Corri a fechar a porta do salão à chave e corri de novo para junto dele. Estava debruçado no longo sofá, junto à lareira e continuava a soluçar, sem parar. O enorme Mendes, neste momento parecia mais pequeno que a indefesa rola. Sentei-me junto a ele, peguei-lhe na cabeça pela testa e deitei-o no meu colo e afagando-lhe o cabelo, que agora reinava branco, vítima do tempo. Aconchegava-o, reconfortava-o, em silêncio, o qual era quebrado somente pelo soluço. Na verdade não entendia o que se passava, visto que ele não se iria afastar da casa, pois tinha ainda alguns deveres, como sempre tivera e iria ter. Não entendia. Deixei-o estar. Alguns minutos passaram, o soluço terminou. Levantou o pesado corpo que se tombava sobre as minhas pernas. Olhou-me nos olhos e sorriu. Depois, ergueu-se muito direito, como que se tratasse duma coluna dum templo Romano e, do alto do seu metro e oitenta e cinco, disse:
- Sempre o amei como um filho. Com sua licença-E retirou-se.
Passados dois dias o seu sobrinho estava às minhas ordens e o Mendes tinha viajado, deixando todas as tarefas ao cargo do sobrinho. Nesses dois dias não dormi nada. De novo a sensação de nada fazer sentido, a sensação de abandono e de mais querer saber, numa turbilhão que teria de ser explicado. Porquê? Será que o iria voltar a ver? O que isto queria dizer? Mais um cliché? Sou filho do mordomo? Essa não! Era demasiado estúpido! Mas como iria saber? Todas estas questões não me deixavam dormir e quando o seu sobrinho, de seu nome, Gustavo Mendes, chega a casa, tudo está de novo confuso. Por mais que perguntasse ao Gustavo onde o tio tinha ido, ele não respondia. Fiz de tudo e nada, não conseguia saber. Esta dúvida está a dar comigo em doido. Na casa onde antes vivera, ficara tudo como estava, não levou nada, nem a roupa. Partira com a sua amantíssima esposa, sem deixar rasto e não sabia se voltava. Passaram-se semanas e nada.

III

O Verão estava à porta e a casa estava linda, nunca esteve tão bela, tão fresca, tão viçosa, estava como nova, sendo tão velha. Os jardins, o barracão, a casa do jardim, a casa do lago, os alpendres, tudo, rigorosamente tudo, estava impecável. Estávamos prontos para receber todos, para mais um Verão no campo e o Gustavo estava à altura das funções que ocupava. No Domingo, logo pela manhã, como por costume faço e fui com ele ver a propriedade. Escolho como sempre o meu velho cavalo e ele foi montado a nova égua. Mal saímos disse-lhe que hoje ia escolher o sítio onde queria viver, ao que prontamente respondeu que o melhor sítio para viver, enquanto o seu tio fosse vivo, seria na casa principal, onde toda a serventia ficava quando estavam em casa. De facto era um sítio acanhado, mas com tudo o que tinham direito. Não quis insistir, pois disse-o com tal firmeza, determinação e assertividade, que não mais perguntei.
A minha busca pelo Mendes estava renegada para segundo plano.
Tinha a minha amada família de volta.
A alegria reinava na casa, todos os fantasmas do passado tinham ido passar férias e voltariam no Inverno. Os gritos das crianças, o cheiro da comida, as gargalhadas do Victor, a voz esganiçada da Avelina, o casal mais estapafúrdio que alguma vez conheci; garbosos e queridos amigos de longa data. O Filipe, o filho do casal, sempre com o seu ar de mandão, que nada manda e tudo faz pela sua esposa. O Borges, marido da minha bela filha mais nova, a Valéria, que estava sempre com ideias para tudo:
- Aqui ficava bem um quadro… ali uma mesa…E por aí fora.
A minha amada filha Margot e o seu tranquilo marido. Viviam em França. Estava cada vez mais igual à mãe. Que saudades da minha amada…
Tudo aquilo fazia-me esquecer o resto. Até os meus gémeos, Francisco e Álvaro, nomes já com muito peso na família, que tanto trabalho tive para os educar, mesmo esses faziam-me sorrir. Estava feliz mais uma vez. Por fim, as rolas… um casal de rolas completavam o quadro. Essa famosa rola…
De novo os clichés? Já não basta? A rola seria a minha falecida mulher? Não pode, isso não faz sentido nenhum! Então o que estaria aquela rola ali a fazer? E quem era o par? O Mendes? Não podia ser… Mas uma coisa é verdade, agora sim, podia começar o que no início tinha em mente fazer. O texto.
Todas as noites avançava a bom avançar, sem parar, completava página, atrás de página, numa história cheia de tudo, tudo mesmo! E como começara afinal?
- “Acordei, levantei-me e morri.”
Sim, era uma autobiografia, com tudo ao pormenor, como manda a lei. Iria ser o meu melhor livro. A tinta que a minha tia tinha posto de parte, estava a dar um jeito tremendo. Não sentia os dedos de tanto escrever, a alma fervilhava de lembranças, de recordações e ao passo que avançava, ou sorria ou chorava, pois nada na minha vida fora médio, tudo era de extremos, tudo estava sempre envolto em formas estranhas de viver, por vezes de sobreviver. Com aquele ritmo, iria por certo terminar o livro antes de todos irem de volta para casa. Os mais velhos iam a voltavam, pois valores mais altos se levantavam, responsabilidades, deveres, mas os mais pequenos, crianças, adolescentes, viviam na casa o Verão todo. Os serões eram em paz, juntos no salão, na sala, espalhados pela casa. Contavam-se histórias de tudo e as ânsias de crescer rápido eram vividas de todas as formas. As personalidades que se formam, os gostos, as vontades, tudo em formação, com uma força de viver avassaladora. Tal como eles, eu, tinha agora mais vontade de viver e uma noite, quando passava pelas minhas recordações, de copo de conhaque na mão, deparei-me com a carta, o manuscrito. Li tudo de novo, como já o fizera vezes sem conta e tive um estremecimentos, como que uma vontade divina, de por um ponto final a tudo. Agora era a altura ideal, estava feliz, contente, determinado que tudo iria conseguir fazer, de que tudo iria correr bem.Então? Esta é a hora certa!
Depois de fazer tudo o que tinha já discutido com os meus advogados, pedi ao Gustavo que tivesse os cavalos prontos para de manhã irmos dar a nossa volta. Como era habitual, assim fez. Eu depois de ter passado a noite toda em claro, de ter terminado o texto, livro neste momento, de me despedir de todos, enquanto dormiam, de me despedir da casa toda, de tudo e todos, parti com o Gustavo. Demos a volta toda e passámos em sítios onde não passava há anos, há mesmo muitos anos. A paz reinava dentro de mim, estava com um sorriso tão grande, o meu coração estava tão cheio, tão solto, o meu peito quase rebentava! Quando nos preparávamos para voltar, o Gustavo disse:
- Adeus Sr.! Não se preocupe, ficará tudo bem entregue, não se preocupe.
E foi. Olhei-o pela última vez, e fui também. Quando caminhava rumo ao fim, o casal de rolas, voou comigo.

quarta-feira, 21 de março de 2012

edadic ad adaf A

Outro ao e este, encravado pêlo um tirando, duas das fazendo vai, e ali e aqui cidade pela vaguear a continua, essa, fada a.
Império tal conseguiu como formas às, injurias altas mais as sempre levantando e riqueza sua a invejar a continuam cidadãos outros os todos, entanto no mas, luxo e potência exagerada de mesmo alguns, potência alta de, carros grandes com cidade pela passear faz-se, hoje pessoa essa. Agonia sua a fim pôs e desejo o concede-lhe, insuspeitas mais das, sabia se nada ou, pouco, qual da, pessoa de espécie uma, fim por. Resultado de tipo qualquer tendo não mas, ponta garbosa sua a desperta pêlo feio muito o onde local o violência com raspar, equina sua a na e edifício dum busca na leva-a desespero o. Passava que velha duma, cheia mão de chapada uma mesmo só levando, nada assim mesmo mas, parcial nudez a experimentou, audazes mais técnicas para passando. Género do coisas e negra magia de, impostora de insultos ouviram-se a mesmo chegando, fada bela da aproximava se quer se ninguém nem, nada entanto no. Tropicais flores de ramo vistosos num maçã uma transformar ou, Smart num plástico de garrafa uma transformar como, fracos mais magia de truques dalguns troca em mesmo, suplicar a fada doce a leva desespero o. Peçonha com alguém de foge quem como, metros alguns afastar-se a mesmo chegando, repugno com olhavam ainda outros. Ninguém, nada mas. Visto era tudo de, espelhados ou, escuros vidros de carrinha duma procura à volta olhavam que outras por passando, pancada ameaçavam que pessoas até, rir tanto de rua na rebolavam se que pessoas desde. Encravado pêlo horrendo o, venenoso o, ardor o, sofrimento o tirassem lhe que, magia de favor dum troca em agora, mendigar de além para, problema dito o tirassem lhe que para faria tudo que, fada boa, sendo assim. Espectáculo horripilante um prometendo, costas as escarafunchasse lhe que queria ainda, bastasse não se como, mão na foleira tão varinha uma com e fada de vestida, trabalhar a estar para idade com já mulher uma estaria que o, comentavam ainda, indiferença com passavam que, pessoas as mas, costas nas tinha que encravado pêlo um tirassem lhe que mendigava, cidade pela passeava que fada uma.