terça-feira, 3 de abril de 2012

Era uma vez... não não! Foi assim... não!

I

Começo esta história, como podia começar outras tantas que vejo por aí:
Era uma vez…
Não! Recusei-me a acreditar que era tudo uma vez! Há, por certo, um monte de outras formas de começar histórias. Depois de muito ler, de muito saber, tinha um conjunto de formas muito interessantes de o fazer, no entanto nenhuma delas me despoletou a vontade exacerbada de copiar, ou até mesmo de me inspirar em formas tão estranhas como:
E…
Mas continuo sem saber como começar. Pensei, depois, no famoso cliché “Eram 10 da manhã...”. De seguida, o ainda maior cliché “Ouviu-se um grande grito no escuro da noite…”. Ou então, o habitual “Assim começa…”. Nada me convencia, nada me inspirava.
Outras hipóteses surgiam, mas tudo o que me ocorria já tinha sido dito, pensado, feito, copiado, engendrado, meticulosamente arquitectado, explanado… daí que pensei que não estaria cá a fazer nada e então esta história começa como muitas outras:

Deixei um bilhete em cima da mesa da sala, que dizia:
“Meus amigos, caros companheiros de longos anos, amigas, camaradas, parceiros de longas lutas, conhecidos, desconhecidos, polícia, bombeiros, juiz, advogado, chupistas, avarentos, sanguessugas, coveiro, familiares e pessoas em geral.

Hoje acordei e pensei que poderia superar o facto de não ter argumentos para começar uma história, mas de facto não tenho. Não me ocorre nada, não tenho força de vontade para continuar, não tenho quem me inspire. De tudo vivi, de tudo um pouco fiz e quase tudo está relatado, escrito, falado, repisado, voltado a ser falado de formas mais loucas que se podia imaginar. Não tenho mais nada para dizer, não sobra mais nada senão um enorme silêncio, uma abafada vontade de tentar, que não vinga, uma terrível sensação de tudo ter feito e nada poder mais fazer. Todos os quantos que me ajudaram e tiveram papéis muito importantes na minha vida privada, pessoal, profissional, mesmo os críticos, que me deram vontade de mais fazer, por mais nefasta que fosse a crítica, quero dar os meus mais sinceros, profundos e alargados agradecimentos.


Vou por fim à minha vida!

Adeus”.

Depois de ter feito este manuscrito, cheio de rancor e tristeza, usando parte da tinta que a tia Beatriz me tinha oferecido e, que estava reservada para O tal texto, pousei-o na mesa da sala de jantar. Desloquei-me, vagarosamente, para a cozinha, com a garrafa de conhaque atrás, onde me esperava um conjunto completo de facas de cozinha. Por certo que não iria falhar pois tinha passado os últimos dias a afiar uma delas, sem propósito nenhum, só mesmo com o intuito de passar o tempo, ou então não…
Fala-se muito destas ocasiões, mas nada se sabe. A coragem, o egoísmo, o que nos leva a tomar uma decisão tão radical, a cobardia, ou simplesmente o cansaço? São ideias vagas, que são analisadas por pessoas que não têm mais nada que fazer. Tudo isto é um perfeito acaso, nada mais que isso. Acções sem grande sentido, que culminam num frenesim histérico de sentidos acumulados, que não conseguimos controlar e, que nos leva a executar uma acção, sem pensar em nada, só pela pura descarga de adrenalina. Não conseguimos controlar, é como um vício que nos enche todos os sentidos o qual tem de finalizar de alguma forma fora do comum, que nos faça sentir tudo, que seja real e mortífero, para depois em paz, possamos sentir o doce e suave fim. Nem a dor se sente…
Estes pensamentos são de quem está pronto, de quem nada teme senão a vontade de não conseguir. Peguei com muito cuidado na faca, para não a deixar cair. Como não podia deixar de ser, quando ia a executar o perpetrado, algo sucedeu. Sim, meus caros leitores! Eis senão quando, uma rola embate com toda a violência na vidraça da gigante janela da cozinha, caindo de seguida inanimada. Não! Isto não! É demasiado mau. Vou agora pensar em acções divinas e outras coisas que tais, efectuar paralelismos irracionais, vontades cósmicas e absurdos vindos de todos os cantos do universo. Não! Recuso-me a acreditar que este acontecimento tivesse tido alguma coisa a ver com a minha perpetração. Foi um acaso da vida, um espontâneo do destino, uma cabala montada por alguém que me estaria a ver naquele momento. As minhas buscas pelo racional levem-me a esquecer o que de facto importa mas, não queria parecer teimoso e investiguei o sucedido. Aproximei-me com algum cuidado da janela, pois tinha uma enorme rachadela e a qualquer momento poderia desabar por cima de mim, matando-me. É estúpido, sim, mas é verdade…
Lá estava a rola, no beiral da janela, da parte de fora, sem movimento. De tudo o que conseguia ver lá para fora, nada fazia pensar que alguém o tivesse feito, pois a imensa mata ao fundo, o baloiço enferrujado, que teimava não cair, amarrado ao enorme carvalho, um pouco mais para a direita, ao fundo o armazém de apetrechos de jardinagem, por trás os estábulos e o barracão, que apodrecia de dia para dia e uma enorme ventania, vinda sabe-se lá donde. Após esta última observação, conclui que a rola não resistiu aos enormes ventos de Maio e se tinha estatelado violentamente contra a imaculada vidraça, pensando poder-se refugiar no aconchego da casa. Sosseguei a minha veia racional e investigatória. Por outro lado nada daquilo me convencia profundamente e como senão bastasse, uma pobre e inocente rola, que jazia inerte, à mercê das intempéries. Primeiro, e para que nada de grave acontecesse com o vidro, fui à cave buscar os enormes barrotes que serviram em tempos para entaipar a casa, após o grande frio de 63, obrigando toda a família a migrar para climas mais moderados. Após ter gasto alguns minutos, certificando-me que o vidro estaria mais seguro, mesmo assim não tinha grande confiança no que tinha feito, resolvi no entanto ir à rua buscar a pobre rola. Sai e, de facto, o vento era duma força incrível. Largos pedaços de ramos soltos esvoaçavam por cima da minha cabeça e desabavam com toda a força a meus pés. Tinha a certeza que se algum dos ditos me acertasse, ficaria ali, sem vida. Sim, de novo, é estúpido, sim… Após alguma luta, consegui chegar perto do parapeito da janela e pegar na indefesa ave. Peguei-lhe com cuidado, senti o seu coração muito fraco, sorri pensando que ainda estaria viva e assim não teria sido em vão a minha aventura naquele temporal. Mal volto costas, a vidraça desmorona no chão, atrás de mim, como um baralho de cartas e com o som de mil trovões. De novo o racional fez-me pensar que devia ter-me assegurado duma forma mais peremptória que o enorme vidro estaria seguro. Por entre os vidros no chão, vi um envelope, o qual não conseguia tirar, sem que me cortasse e assim esvaíra-me em sangue, ali, na rua. Nem vale a pena falar, certo? Pisei com todos os cuidados os vidros e fechei as portadas, evitando assim que mais alguma coisa entrasse na casa, sem que tivesse sido previamente convidado. Ainda com a rola na mão e sentindo o calor da minha mão, senti que se mexia. Entrei em casa, fechei a porta e corri para a casa de banho, a fim de proceder aos curativos necessários, de forma a colocar a frágil ave de novo sã, pronta a desbravar os céus. Mexia-se agora com mais veemência, mas notei que poderia ter uma asa magoada, ou até mesmo partida. Já na casa de banho, peguei com todos os cuidado na asa que me parecia magoada e de facto quando mexia nela, o pobre bicho esperneava de dor. Não tendo qualquer tipo de noção de como proceder, pensei como se tratasse um humano. Dei-lhe algo para as dores, mas numa dose muito pequena e depois amarrei-lhe uma espécie de tala à asa, fui à cozinha buscar a cesta forrada a palha, onde normalmente se transportava os ovos, fui para a sala e deixei-a lá dentro. Para meu espanto, ali ficou, sem grandes movimentos. Fiquei horas a olhar para ela, imaginando o que estaria a pensar. Depois pensei que seria melhor providenciar alguma coisa para comer. Peguei no cesto e encaminhámo-nos para a biblioteca. Procurei por aves e em seguida, a sua alimentação. Onde poderia ter tais coisas? Dei um salto e corri para a sala de novo. Dentro da garrafeira tinha algumas sementes de girassol, que por norma uso para acompanhar algumas bebidas espirituosas, ou até uma cerveja. Dei-lhe uns quantos e a princípio não lhe tocou, mas por fim, talvez porque a fome fora mais forte, comeu bastante. Ali estava, prostrada, só mexendo por vezes a cabeça, em movimentos muito suaves. Eu não conseguia tirar os olhos da criatura, mirava-a como se tratasse duma obra de arte e a cada movimento, o meu coração saltava, com medo que lhe pudesse estar alguma estar a incomodar. Para a tranquilizar, fui para o piano e aí toquei uma suave balada. Não sei como, nem porquê, aninhou-se e adormeceu. Fiz um flash-back e por mais que fosse racional, nada fazia sentido. Olhei o papel que estava em cima da mesa de sala de jantar e, numa tentativa de encontrar um desfecho racional, concordante, efectivo de tudo aquilo, li de novo o manuscrito, que há horas houvera redigido. Quando o terminei, fiquei ainda pior, pois achei que o que estava ali escrito, não podia ter sido escrito pela minha mão. Senti como uma medonha que algo inexplicável poderia estar por detrás de tudo aquilo. Sentei-me na mesa da sala e daí, mirei o enorme quadro pendurado por cima da lareira, em baixo, junto à mesma, a rola lá estava, serena. O quadro parecia querer falar comigo, como que se o meu tetravô tivesse voltado dos mortos e dizia muito baixo: “Começa… começa com…”. Mal ouvia o que dizia. Estava tão cansado que aquelas palavras levaram-me a sucumbir na mesa, com o cansaço. Sonhei com nada, rigorosamente com nada.
Acordei, levantei-me e tive uma epifania: “É assim mesmo que eu vou começar o meu texto!”

“Acordei, levantei-me e morri.”

Dei um salto de contentamento, um pulo de euforia, um grito de alegria. Estava mais vivo que nunca e tudo fazia sentido agora. Lembrei-me vagamente do dia anterior e no meio de tanto entusiasmo, lembrei-me da rola. Já andava a fazer das suas, a malandreca. Estava agora no chão, onde arrastava a asa e comia do chão os restos das sementes do dia anterior.
Estão a pensar o mesmo que eu, não estão? Vou acabar por morrer duma forma tão estúpida, que nem vale a pena ler mais nada, é isso, não é? Não sei. Na verdade não sei, pois estou tão contente, que tudo poderia acontecer. Mas primeiro, vamos ao pequeno-almoço e depois logo penso nisso. Vamos rola?

II

Alguns dias passaram e não conseguia tirar o sorriso da minha face. A alegria de voltar a encontrar o meu verdadeiro eu, preenchia-me de todas as formas, mesmo aquelas que não eram válidas. Tinha ganho anos de vida! A ideia megalómana de ter uma vidraça tão grande na cozinha, desvanecera-se e em vez disso, depois de mandar chamar o meu vidraceiro de confiança, estava naquele momento a colocar uma janela própria dum palacete em que estava embebido. Resolvi tratar de quase tudo o que estava pendente na minha vida e quase tudo tinha a ver com a casa. A casa do jardim estava agora em construção, o jardim em si, estava num rebuliço duma verdadeira excitação de Primavera. O baloiço, esse pedaço de memórias, que na maior parte eram más, tinha sido retirado e a velha arvore, que trazia uma ferida profunda, estava neste momento em processo de cura, mas sabendo que as feridas curam-se, no entanto as cicatrizes ficam, que relembram os erros.
Tomei uma decisão, não ia deitar fora o manuscrito e estava já emoldurado. Ficou pendurado ao lado do outro grande ícone da minha vida, o meu tio Álvaro. Em quase todas as decisões da minha vida, tinha consultado as minhas referências e, tal como as decisões, nem sempre foram as mais acertadas. Mas o que tinha eu para me queixar? De nada! Tinha uma vida boa, cheia e repleta de coisas boas, que forravam o meu ego duma forma radiante e por ter tudo quase tão fácil, teriam acontecido os actos paralelos de há uns dias atrás? O meu racional continuava confuso, mas a excitação da alegria, toldava a minha razão. Se perguntam pela rola, a resposta é fácil. Depois de curar a asa, nunca mais abandonou a casa e voava graciosamente por todas as divisões. Mesmo estando janelas e portas abertas, só se assomava nelas, não tinha vontade de voltar à liberdade dos campos. A bem dizer tinha tudo em casa, para quê voltar a procurar o lado selvagem? Era livre em casa, tanto como na rua, mas preferia o aconchego da casa e quiçá daqui a uns dias não iria ter a companhia de outra rola. Depois de ler um pouco mais acerca desta espécie, conseguia já distinguir machos de fêmeas e estava perante uma fêmea. Não deixava de ser um tanto irónico, tal como tantas outras situações na minha vida.
A vida estava de volta à aquela velha casa e as férias de Verão estavam a chegar. Com isso toda a família que regressava às origens por uns dias, ou até mesmo meses, dependendo de quem viesse. Sentia uma urgência em estar com quem pudesse partilhar tudo de coração aberto, com alguém de confiança. Na aldeia todos me odeiam, tanto a mim como toda a minha família ou não odeiam, mas fingem que o fazem, por ser quem sou, ou filho de quem sou, onde vivo e como vivo. Todos, sem tirar um, mesmo os que estão a trabalhar comigo, na casa, nas terras, todos me olham com raiva. Mesmo quando tentava partilhar o pouco tempo, com os demais, companheiros de labuta, irmãos da mesma terra, que nos viu crescer, nem mesmo os meus mais chegados amigos de infância, mesmo todos me desprezavam. Estou a ser desonesto, e a proferir inverdades, pois havia um, que mesmo sendo meu/nosso empregado de sempre, meu companheiro de sempre e que já algum tempo não vinha à casa principal, pois gostava de ficar na casa que lhe oferecera, mais afastada da casa principal, onde vivia com a sua mais que tudo. O meu velho Mendes. Sempre soube que me amava, da mesma forma como quem ama um filho, mesmo depois de lhe ter feito de tudo, eu e alguns da casa, mesmo depois de partilhar o ódio da população, mas sabia que me amava. Mandei chamá-lo. Veio assim que pôde. Sempre impecável, sempre tão aprumado, mesmo agora que já não trabalha, no entanto recebe o mesmo até que morra. Foi um trato que fiz com ele e que já vinha de todos os outros que acompanhavam a família desde o primeiro que nos tinha servido. Não fazendo parte da família, provavelmente tinham mais segredos que todos nós juntos.
Ali estava ele, pronto, como sempre. Mandei-o entrar para o salão e sentar-se comigo junto à lareira. A conversa ia ser grave, pois tratava-se da sua substituição e na verdade não sabia como começar a conversa, tal como no início deste texto, senti o mesmo.
A total impotência de nada conseguir, de pensar em todos os clichés possíveis e imaginários, mas nenhum se adequava à situação. O Mendes, o valente Mendes, que sabia melhor do que eu as minhas fraquezas, prontamente nomeou o seu sobrinho para o substituir. Não consegui evitar uma lágrima e outra. O Mendes, homem ríspido, grave, alto, esguio, mesmo com a idade de avô, manteve sempre a sua pose, afagou-me, colocando a sua enorme mão na perna, e disse:
- Meu caro, há muito tempo que este dia estava para chegar e, depois do que passou, acho que tenho o dever de o ajudar. Este meu sobrinho, desde muito cedo que recebeu a educação para me substituir, pois foi educado connosco, aliás, como sabe e tem das melhores educações, logo está talhado para o servir da melhor forma. Não se atormente, eu sei bem qual é o meu lugar nesta casa, sempre o soube e o mesmo fará o seu novo empregado. Quando se deve apresentar?
- Não sei o que dizer caro Mendes…
- Vá, meu bravo, cabeça para cima, vamos! Não é isto que o vai deitar abaixo, pois não? Vamos, liberte a fúria dos Alves! Vamos meu… sempre menino.
Dizendo isto, desaba profundamente, num pranto como eu nunca tinha visto, nem mesmo por mulheres que vivam os lutos de forma tremenda. Chorava, soluçava, em pranto, em sobressalto, não se conseguindo controlar. Corri a fechar a porta do salão à chave e corri de novo para junto dele. Estava debruçado no longo sofá, junto à lareira e continuava a soluçar, sem parar. O enorme Mendes, neste momento parecia mais pequeno que a indefesa rola. Sentei-me junto a ele, peguei-lhe na cabeça pela testa e deitei-o no meu colo e afagando-lhe o cabelo, que agora reinava branco, vítima do tempo. Aconchegava-o, reconfortava-o, em silêncio, o qual era quebrado somente pelo soluço. Na verdade não entendia o que se passava, visto que ele não se iria afastar da casa, pois tinha ainda alguns deveres, como sempre tivera e iria ter. Não entendia. Deixei-o estar. Alguns minutos passaram, o soluço terminou. Levantou o pesado corpo que se tombava sobre as minhas pernas. Olhou-me nos olhos e sorriu. Depois, ergueu-se muito direito, como que se tratasse duma coluna dum templo Romano e, do alto do seu metro e oitenta e cinco, disse:
- Sempre o amei como um filho. Com sua licença-E retirou-se.
Passados dois dias o seu sobrinho estava às minhas ordens e o Mendes tinha viajado, deixando todas as tarefas ao cargo do sobrinho. Nesses dois dias não dormi nada. De novo a sensação de nada fazer sentido, a sensação de abandono e de mais querer saber, numa turbilhão que teria de ser explicado. Porquê? Será que o iria voltar a ver? O que isto queria dizer? Mais um cliché? Sou filho do mordomo? Essa não! Era demasiado estúpido! Mas como iria saber? Todas estas questões não me deixavam dormir e quando o seu sobrinho, de seu nome, Gustavo Mendes, chega a casa, tudo está de novo confuso. Por mais que perguntasse ao Gustavo onde o tio tinha ido, ele não respondia. Fiz de tudo e nada, não conseguia saber. Esta dúvida está a dar comigo em doido. Na casa onde antes vivera, ficara tudo como estava, não levou nada, nem a roupa. Partira com a sua amantíssima esposa, sem deixar rasto e não sabia se voltava. Passaram-se semanas e nada.

III

O Verão estava à porta e a casa estava linda, nunca esteve tão bela, tão fresca, tão viçosa, estava como nova, sendo tão velha. Os jardins, o barracão, a casa do jardim, a casa do lago, os alpendres, tudo, rigorosamente tudo, estava impecável. Estávamos prontos para receber todos, para mais um Verão no campo e o Gustavo estava à altura das funções que ocupava. No Domingo, logo pela manhã, como por costume faço e fui com ele ver a propriedade. Escolho como sempre o meu velho cavalo e ele foi montado a nova égua. Mal saímos disse-lhe que hoje ia escolher o sítio onde queria viver, ao que prontamente respondeu que o melhor sítio para viver, enquanto o seu tio fosse vivo, seria na casa principal, onde toda a serventia ficava quando estavam em casa. De facto era um sítio acanhado, mas com tudo o que tinham direito. Não quis insistir, pois disse-o com tal firmeza, determinação e assertividade, que não mais perguntei.
A minha busca pelo Mendes estava renegada para segundo plano.
Tinha a minha amada família de volta.
A alegria reinava na casa, todos os fantasmas do passado tinham ido passar férias e voltariam no Inverno. Os gritos das crianças, o cheiro da comida, as gargalhadas do Victor, a voz esganiçada da Avelina, o casal mais estapafúrdio que alguma vez conheci; garbosos e queridos amigos de longa data. O Filipe, o filho do casal, sempre com o seu ar de mandão, que nada manda e tudo faz pela sua esposa. O Borges, marido da minha bela filha mais nova, a Valéria, que estava sempre com ideias para tudo:
- Aqui ficava bem um quadro… ali uma mesa…E por aí fora.
A minha amada filha Margot e o seu tranquilo marido. Viviam em França. Estava cada vez mais igual à mãe. Que saudades da minha amada…
Tudo aquilo fazia-me esquecer o resto. Até os meus gémeos, Francisco e Álvaro, nomes já com muito peso na família, que tanto trabalho tive para os educar, mesmo esses faziam-me sorrir. Estava feliz mais uma vez. Por fim, as rolas… um casal de rolas completavam o quadro. Essa famosa rola…
De novo os clichés? Já não basta? A rola seria a minha falecida mulher? Não pode, isso não faz sentido nenhum! Então o que estaria aquela rola ali a fazer? E quem era o par? O Mendes? Não podia ser… Mas uma coisa é verdade, agora sim, podia começar o que no início tinha em mente fazer. O texto.
Todas as noites avançava a bom avançar, sem parar, completava página, atrás de página, numa história cheia de tudo, tudo mesmo! E como começara afinal?
- “Acordei, levantei-me e morri.”
Sim, era uma autobiografia, com tudo ao pormenor, como manda a lei. Iria ser o meu melhor livro. A tinta que a minha tia tinha posto de parte, estava a dar um jeito tremendo. Não sentia os dedos de tanto escrever, a alma fervilhava de lembranças, de recordações e ao passo que avançava, ou sorria ou chorava, pois nada na minha vida fora médio, tudo era de extremos, tudo estava sempre envolto em formas estranhas de viver, por vezes de sobreviver. Com aquele ritmo, iria por certo terminar o livro antes de todos irem de volta para casa. Os mais velhos iam a voltavam, pois valores mais altos se levantavam, responsabilidades, deveres, mas os mais pequenos, crianças, adolescentes, viviam na casa o Verão todo. Os serões eram em paz, juntos no salão, na sala, espalhados pela casa. Contavam-se histórias de tudo e as ânsias de crescer rápido eram vividas de todas as formas. As personalidades que se formam, os gostos, as vontades, tudo em formação, com uma força de viver avassaladora. Tal como eles, eu, tinha agora mais vontade de viver e uma noite, quando passava pelas minhas recordações, de copo de conhaque na mão, deparei-me com a carta, o manuscrito. Li tudo de novo, como já o fizera vezes sem conta e tive um estremecimentos, como que uma vontade divina, de por um ponto final a tudo. Agora era a altura ideal, estava feliz, contente, determinado que tudo iria conseguir fazer, de que tudo iria correr bem.Então? Esta é a hora certa!
Depois de fazer tudo o que tinha já discutido com os meus advogados, pedi ao Gustavo que tivesse os cavalos prontos para de manhã irmos dar a nossa volta. Como era habitual, assim fez. Eu depois de ter passado a noite toda em claro, de ter terminado o texto, livro neste momento, de me despedir de todos, enquanto dormiam, de me despedir da casa toda, de tudo e todos, parti com o Gustavo. Demos a volta toda e passámos em sítios onde não passava há anos, há mesmo muitos anos. A paz reinava dentro de mim, estava com um sorriso tão grande, o meu coração estava tão cheio, tão solto, o meu peito quase rebentava! Quando nos preparávamos para voltar, o Gustavo disse:
- Adeus Sr.! Não se preocupe, ficará tudo bem entregue, não se preocupe.
E foi. Olhei-o pela última vez, e fui também. Quando caminhava rumo ao fim, o casal de rolas, voou comigo.

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